Outubro 02, 2007

Acabo de perceber...

Outubro de 2007. Estou estupefacta com o facto de ter passado um ano inteiro desde a última vez que escrevi. Parece-me, de resto, uma altura acertadamente simbólica para recomeçar, já que passei um ano inteiro a ter fugazes lembranças de escrever mas sempre com a sensação que tinha escrito no mês anterior... Fugazes, porque se desvaneciam no bulício diário como fumo. E o fumo não se consegue segurar...

Tenho de fazer um balanço. Sim, parece-me que um balanço está em ordem... Que me aconteceu em doze meses? Mudei de emprego. Mas isso não interessa, eu continuo a ser eu. Se calhar um eu mais banal, mas também mais equilibrado. Mas banal. Parece-me que é inexorável: a rotina começa a roer-nos a ponta dos pés e vai marchando e galgando terreno até não sermos mais do que uma sombra da figura brilhante que queríamos ser e sempre quase, quase, fomos. Subitamente, tenho uma pilha de livros começados e nunca acabados na mesa de cabeceira, uns quantos esboços perdidos, umas linhas soltas perdidas aqui e ali em papéis semi-amarrotados abandonados em fundos de gavetas e que a mulher-a-dias lê à socapa (de espanador encostado ao ombro e lenço na cabeça, como nos filmes!) e abana a cabeça no fim, perplexa. E o meu eu artístico acena-me de longe, atirando-me notas de vinte, com um ar sarcástico. E piedoso. Ó vil metal! Por ti e pelas férias no estrangeiro, pelo que está no armário, pelos luxos da Fnac desaproveitados e inacabados me proponho definhar em espírito... Que me abandona a esta existência de Yuppie com tendências alternativas, vida a dois de classe média, grotescamente mediana!

Que a solidão é a coisa mais romântica e inspiradora que existe.

Escrito por AnaDiáfana em 23:02:51 | Link permanente | Comments (32) |

Outubro 10, 2006

Corpo impaciente

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
Escrito por AnaDiáfana em 10:12:39 | Link permanente | Comments (0) |

O espelho de Narciso

«Preciso que me ajudes... Sim, tu! Eu sei que fui eu quem te renegou, quem nos renegou a nós. Os erros que cometi só podem ser ultrapassados de me rojar a teus pés e me encher duma esperança desesperançada, mas que, ainda assim, existe. Porque tu, ao contrário de mim, tinhas a certeza e me disseste que me esperarias sempre.».

Ainda não estou preparada para o salto final, para o estertor que me trará de volta, para que me abraces finalmente. Quanto aos erros, obstáculos a esta nuvem branca, não sei. Encho-me de uma derradeira paciência, porque não se pode esperar apoio de quem está vazio... O vazio é triste, e feio, e nunca saberá nada sobre o que já tivemos, em tempos. No fundo, apiedo-me de tanto Narcisismo, porque olhar para o espelho não faz com que estejamos acompanhados... é estar só. Lembro-me da despedida egoísta que foi feita naquela noite quente, o Ritual dos Sentidos, e que me marca como um ferro em brasa. Como poderia eu esquecê-la? Faz-me mal e corrói-me por dentro. Renego este pensamento, porque me impede de correr para o objectivo final da redenção. Os erros hão-de desvanecer-se sozinhos, quando bem entenderem, porque afinal só olham para si mesmos... como que para o espelho.

Escrito por AnaDiáfana em 09:55:11 | Link permanente | Comments (0) |

Maio 21, 2006

Da autosuficiência

Queria dizer antes: consciência da realidade. Somos aquilo que pretendem de nós. Temos de sorrir e ser autosuficientes, não podemos precisar dos outros; a isto chama-se fraqueza humana, e a fraqueza é como em qualquer espécie do Reino Animal, uma condenação a um estado de dependencia que nos torna parasitas ou pode até significar extinção. Em qualquer um dos casos, leva a um fim prematuro da existência. Somos feitos para ser autónomos, estamos preparados até para viver sozinhos, se for caso disso, isolados de qualquer outra presença que não seja indispensável à sobrevivência na sua base. A uma sucessão de fraquezas segue-se a aniquilação final ou a passagem a uma outra fase, que se traduz num estado de força superior... É como a Lei de lamarck enuncia: o uso faz o orgão e a sua funcionalidade. Aprender é vivenciar experiências pedagógicas, que nos preparam ou nos causam a derrota final. Sorrir, parecer feliz e realizado, garantir uma imagem de sucesso e divertimento: é a chave para a atracção dos pares, que do mesmo modo, fogem em debandada à primeira evidência de ruptura.

Um meio diferente pode significar a alteração total das ideias e dos desejos, pode mudar a vida para sempre. Perdemos a noção de quem somos e do que queremos, agimos em conformidade com o momento. Se de repente somos novamente inseridos no ninho, já não sabemos como caber nele, e as coisas são irrevogáveis, mesmo ganhando a consciencia do logro. É tão mau quando qualquer coisa morre em nós, a ideia do que podia ser e não foi. A vida pode ser uma sucessão de momentos felizes, se a encararmos como uma longa experiencia pedagógica.

Quem me dera não aprender tanto.

Escrito por AnaDiáfana em 23:03:51 | Link permanente | Comments (1) |

Maio 18, 2006

Da falha interior

Falta-lhe um bocado.

Verte confiança, transborda serenidade. Não se abala, não sente nada. Não menospreza aquilo que não conhece, daquilo que os humanos sentem... Sabe que lhe falta, mas não pode sentir falta do que não conhece. Sabe que só pode apreciar a vida por cada momento... se num instante quer alguma coisa, e lhe apetece, vai e tenta-a, mas se não a consegue também não sente frustraçao.

Só pode lamentar que os impulsos guiem aqueles que sentem demais.

Escrito por AnaDiáfana em 00:54:51 | Link permanente | Comments (0) |

Maio 11, 2006

Platão (400 aC), diz que “... também nas mulheres e pelas mesmas razões, a chamada matriz ou útero é um animal que vive nelas com o desejo de fazer filhos. Quando fica muito tempo estéril, após o período da puberdade, tem dificuldade em suportá-lo, indigna-se, erra por todo o corpo, bloqueia os condutos do hálito, impede a respiração, causa mal-estar extremo e ocasiona doenças de toda espécie”.

Hipócrates, que foi contemporâneo de Platão, fala da histeria no capítulo reservado às doenças femininas, e corrobora a idéia da movimentação do útero no interior do corpo da mulher também serve como explicação para outras doenças, além da histeria. Por exemplo, a suspensão das regras também era provocada por esta migração uterina. Se a mulher não mantinha relações sexuais e o ventre se encontrava vazio (não grávido), o útero sofria um deslocamento devido ao ressecamento e à leveza, (maiores que o normal), provocados pela ausência do coito.

Hipócrates achava, de facto, que a sufocação da matriz (útero) ocorria, sobretudo, em mulheres que estavam em abstinência sexual.

Naquelas mulheres, os espaços encontrar-se-iam mais vazios que ordinariamente, o útero ressecado e mais leve deslocar-se-ia em direção aos vários órgãos. Quando este se lançava sobre o fígado, causava uma sufocação súbita que interceptava a via respiratória “localizada no ventre”. Nestas ocasiões, os olhos se reviravam, a mulher tornava-se fria e lívida, cerrava os dentes, salivava abundantemente e assemelhava-se aos epilépticos em crise. O prognóstico era bom e o ataque sobrevinha em plena saúde. O útero também podia lançar-se sobre outros órgãos, como o coração, a vesícula, etc. A sintomatologia era variada: vômitos, afonia, dores de cabeça, esfriamento das pernas, etc.

O tratamento hipocrático para histeria, à semelhança dos egípcios, consistia em reconduzir o útero ao seu lugar de origem através de remédios que eram inalados e fumigações de preparados exóticos. A relação entre histeria e, digamos, preenchimento vaginal, era tão marcante que um bom remédio para os casos onde a doente perdia a voz e cerrava os dentes, seria introduzir-lhe na vagina um pessário (consolo) embebido em substâncias perfumadas até que o útero voltasse ao seu lugar. O tratamento preventivo, conseqüentemente, era o casamento para as jovens solteiras e o coito para as casadas.

Escrito por AnaDiáfana em 00:28:19 | Link permanente | Comments (1) |

Maio 08, 2006

O Monstro não precisa de amigos

É monstro sem o saber. E tem alguns sentimentos, também, o que torna um paradoxo a designação. Tem necessidades, muitas... sobretudo físicas, como os animais. Despreza fragilidades emocionais. Basta-se a si próprio e a pessoa que  acompanhará será alguém que esteja por perto à hora certa, que se lhe depare no caminho que estipulou para si e de onde não se desviará um milímetro que seja, centrado no orgulho de quem sabe que vai além das expectativas que tinham sobre ele. Não olha para trás nem cede à fraqueza de se comover com factos do passado. As fotografias de gente que lhe é próxima são meras folhas de papel para onde nunca olha. Não sabe o que são saudades a não ser para se lembrar da falta física e da necessidade de contacto humano para actividades lúdicas de entretenimento. Não é, de resto, essencial, posto que os objectos que possui, escolhidos a dedo, servem-lhe para suprir a básica necessidade consumista de quem gosta de viver um modo de vida a raiar o ascetismo. As mulheres são objectos de adulação por quem se apaixona e inevitavelmente se desilude, ao descobrir que gostam naturalmente dele e de como ele se mostrou na altura em que fazia por consegui-las. Ilude-se, também, no fundo, quando pensa que existe uma parelha certa para ele... no fundo, enfada-se com a companhia, e faz-lhe falta é a distracção. Se alguém precisar dele, escorre como uma enguia e finca os pés como arauto da honestidade, clamando a viva voz que nunca prometeu ser ou dar mais do que aquilo, que a verdade é que têm de o amar como ele é. Faz isto numa altura em que já sabe que é fácil manipular o ser dependente que domou pela meiguice... Faz sofrer e sacode quem se debilita e contorce, em agonia. Não terá saudades, de qualquer modo...

 

Escrito por AnaDiáfana em 19:31:33 | Link permanente | Comments (0) |

Abril 12, 2006

The office

Uma sala cheia de luz, para despertar os espíritos entorpecidos. Secretárias juntas e expostas, para que tudo o que é feito por cada um seja sujeito ao escrutínio minucioso do outro. Nada escapa ao olhar atento do «Grande Irmão». Os mais novos são avaliados ao segundo. Cada vacilo, cada prova de empenho e esforço são sopesados numa balança contínua de prós e contras. Pessoas são investimentos arriscados, dispendiosos. Têm de corresponder. Por isso respondem eles e quem os levou até ali, depois duma série de entrevistas abstractas e testes empíricos de aptidão. A Lei do mais forte! Escolhidos entre muitos, há que incutir-lhes no espírito a ideia de que são priveligiados e de que são especiais por ali estarem, e logo, têm que estar à altura do muito que se espera deles. Levantar a moral, exibir regras, vender o lugar e o ambiente como mais-valias, como se fossem os anjos de um altar em que o mundo tem os olhos postos. Tudo é imagem, tudo é estatuto. A imagem é tudo, o estatuto é tudo. Gradualmente a engrenagem começa a funcionar como é suposto, mecanizam-se as frases e as atitudes, até serem também mais uma peça do sistema uniforme, mais um parafuso do circuito de roldanas que faz a grande máquina girar.

         Mantenha um registo de tudo o que faz, porque certamente alguém lhe irá pedir esclarecimentos

     Não apresente problemas sem solução; Escolhemo-lo para nos dar soluções

                                   O que conta são os resultados, não o esforço dispendido

        Anote as boas ideias: elas  perdem-se... como as canetas

                                                Nunca diga que algo não é da sua competência

                        O que fica retido na memória é a conclusão:

 

                                 Acabe sempre MAIS FORTE do que começou

 

Escrito por AnaDiáfana em 11:20:15 | Link permanente | Comments (0) |

Abril 09, 2006

Da incessante busca pelo amor

O «amor da nossa vida» não é a pessoa que fica ao nosso lado para sempre. Esse é o nosso amor terreno, a pessoa com quem um dia estaremos sentados à lareira a ler o jornal ou, numa visão optimista, um livro (quem sabe até poesia!) já subjugados pelo peso dos muitos anos em comum, quando os gestos trémulos das carícias, que ainda as há, são meros esboços dos afagos vigorosos de outros tempos... Esse amor é o amor do companheirismo e da cumplicidade. É o amor que fica, o que escolhemos, é a nossa casa. O «amor da nossa vida» é tudo aquilo que nunca vivemos, é tudo o que escolhemos não viver... é o «e se...?», o inacabado, o não resolvido. É a divinização de alguém que nunca seria como a ilusão que escolhemos ter dele para sempre, a idealização duma entidade perfeita para nós que nunca seria palpável. É o inalcançável, já que aquele que escolhemos para ficar do nosso lado nunca poderá vencer a luta desigual e injusta que trava com essa Divindade no íntimo de quem a tem. O «amor da nossa vida» não exige esforço nem empenho porque já é perfeito e, no entanto, nunca será.

O amor terreno quer alicerces, e vigas, e grandes colunas de betão. Quer abraços e beijos quando desfalece e fica doente... Quer frases bonitas quando paira no ar o desconsolo, quer amistosas pancadinhas de encorajamento, e leite quente, e bolachinhas com recheio... só hoje. Quer provar os lábios mesmo quando já não há sabor, ou quando ele está esbatido pelo entorpecimento dos dias. Quer fazer a cama, descascar batatas, e cheirar a comida, às vezes... Dormir pouco, ouvir resmungos, deixar de fazer coisas que gostava de fazer. O amor que fica não é perfeito, mas existe!

És tu a minha casa? 

Escrito por AnaDiáfana em 22:43:57 | Link permanente | Comments (1) |

Março 30, 2006

Tudo a nú.

Já me disseram, e não deixo de concordar, que eu achava que era o centro do mundo. Como se isso fosse mau... e como se nem toda a gente achasse isso acerca de si próprio, as mais das vezes. Hoje, dia raro em que me encontro em paz comigo própria, resolvi reflectir sobre o assunto. É bom quando conseguimos estar assim, em equilíbrio. A minha condição feminina nem sempre mo permite, com este fluxo violento de hormonas que me fazem dizer e fazer o que não quero nem penso, e me fazem empolar os acontecimentos até um paroxismo incompreensível. Muitas vezes, felizmente, consigo pensar com lucidez. Olho para trás e consigo ver que consegui sempre aquilo que queria; quase sempre, pelo menos. O problema foi descobrir os objectivos, antes de lançar os meus esforços sobre eles. Quando se tem uma alma de diletante, o pensamento vagueia por tantas pretensões divergentes, contraditórias até, que se torna muito difícil discernir aquilo que achamos realmente importante daquilo que achamos que queremos, pela ânsia de mostrar aos outros que conseguimos ser aquilo que esperam de nós. Acho lindo, quero para mim... ou quero para mim porque outros acham bonito? Acho que lentamente distingo as coisas. Não quero saber se acham que os blogues servem para frustrados que não podem expressar de outra forma as suas opiniões e críticas de música e cinema, bem como ditames banais acerca das suas patéticas vidas. Creio que li algo semelhante, algures. Escrevo para mim. Nunca tive um diário que durasse tanto tempo, por exemplo. E o facto de que outros, anónimos ou não, possam por aqui passar e devassar a minha nudez mental, também não me incomoda. Considerem-no Naturismo Prosaico.

 

Escrito por AnaDiáfana em 00:15:20 | Link permanente | Comments (7) |